Dificuldade para caminhar, perda progressiva de memória e episódios de incontinência urinária em uma pessoa idosa podem ser interpretados, inicialmente, como consequências do envelhecimento ou até como sinais de doenças como Alzheimer e Parkinson.
Mas existe outra condição que precisa ser considerada: a Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN).
A HPN é uma síndrome neurológica caracterizada pelo aumento dos ventrículos cerebrais associado, principalmente, a alterações da marcha, comprometimento cognitivo e disfunção urinária. Uma de suas características é que a dor de cabeça intensa, comum em outras formas de hipertensão intracraniana, geralmente não é uma manifestação predominante.
O reconhecimento da doença é especialmente importante porque, em pacientes adequadamente selecionados, existe possibilidade de tratamento cirúrgico e melhora dos sintomas.
Tradicionalmente, a HPN é associada a uma tríade de manifestações:
alteração da marcha;
comprometimento cognitivo;
urgência ou incontinência urinária.
Nem todos os pacientes apresentam os três sinais simultaneamente — e eles podem surgir em momentos diferentes da evolução da doença.
Entre eles, a alteração da marcha costuma ser uma das manifestações mais precoces e características.
O paciente pode começar a andar mais devagar, dar passos curtos, apresentar dificuldade para iniciar o movimento e ter a sensação de que os pés estão “grudados no chão”. Também podem ocorrer instabilidade e quedas.
Com a progressão, podem surgir alterações cognitivas, como lentificação do pensamento, dificuldade de atenção e redução da iniciativa. Os problemas urinários podem começar com aumento da urgência para urinar e evoluir para incontinência.
Existe uma sobreposição de manifestações entre essas doenças.
Alterações cognitivas podem sugerir inicialmente um quadro demencial, enquanto a lentidão e as dificuldades para caminhar podem lembrar síndromes parkinsonianas. Além disso, como a HPN ocorre predominantemente em pessoas mais velhas, alguns sinais podem ser atribuídos simplesmente ao envelhecimento.
Por isso, a avaliação não deve considerar cada sintoma isoladamente.
História clínica, exame neurológico e exames de imagem precisam ser analisados em conjunto.
A ressonância magnética ou a tomografia computadorizada do crânio podem mostrar dilatação dos ventrículos cerebrais, mas encontrar ventrículos aumentados em um exame não é suficiente, isoladamente, para confirmar HPN.
É necessário verificar se os achados de imagem são compatíveis com o quadro clínico e excluir outras possíveis causas.
Em pacientes selecionados, testes de drenagem do líquido cefalorraquidiano — como o tap test, realizado por meio de punção lombar com retirada de determinado volume de líquor — podem auxiliar na avaliação da possibilidade de resposta ao tratamento.
O diagnóstico da HPN, portanto, exige uma análise especializada.
Esse é um dos aspectos mais importantes da doença.
Quando existe indicação, o tratamento mais utilizado é a implantação de uma derivação liquórica, frequentemente a derivação ventriculoperitoneal. O sistema permite direcionar o excesso de líquido cefalorraquidiano dos ventrículos cerebrais para outra região do organismo, geralmente a cavidade abdominal.
A resposta ao tratamento varia entre os pacientes. A marcha costuma ser o domínio com maior possibilidade de melhora, embora sintomas cognitivos e urinários também possam responder.
A seleção adequada do paciente é fundamental, porque nem toda dilatação ventricular significa HPN e nem todo paciente com suspeita da doença terá benefício com uma cirurgia.
Alterações progressivas na forma de caminhar, associadas a mudanças cognitivas ou no controle urinário, merecem investigação.
Em uma pessoa idosa, esses sinais não devem ser automaticamente considerados consequência natural do envelhecimento.
A Hidrocefalia de Pressão Normal é particularmente importante justamente por isso: entre diferentes condições neurológicas que podem provocar perda progressiva de independência, existe uma possibilidade potencialmente tratável.
Reconhecer o quadro e chegar ao diagnóstico correto pode fazer diferença na mobilidade, na autonomia e na qualidade de vida do paciente.
Agendamentos: (11) 95121-6699
Dr. Rodolfo Casimiro – Neurocirurgião
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